O velho Dubai nas duas margens do Creek
Do Museu Al Shindagha, passando pelas vielas com torres de vento de Al Fahidi, até o Souk do Ouro: o bairro do governante, um forte, a travessia de abra e os souks de Deira. Uma caminhada curta e plana por vielas sombreadas, com alguns minutos na água.
Rota
Você começa na ponta do velho Dubai, na língua de terra de Shindagha, onde o Creek encontra o Golfo aberto. Este era o bairro do governante, e suas casas baixas de pedra de coral foram reconstruídas como um longo museu à beira da água. Há água dos dois lados: o mar além de Port Rashid a oeste, o Creek que se curva para dentro da terra do outro. Sob seus pés corre o túnel de Shindagha, aberto em 1975 como a estrada sob a foz do Creek; antes dele, tudo aqui ia de barco. A caminhada mantém o Creek ao seu lado o tempo todo. Telhados planos, torres de vento quadradas e dhows ancorados à porta dizem onde você está.
Siga o cais por dez minutos com o Creek ao seu ombro. Esta margem é Bur Dubai, literalmente terra de Dubai, a cidade continental que a água sempre separou de Deira, em frente. As abras vão e vêm o tempo todo, com motores que são o som mais alto do cais, e as torres de Deira se enfileiram atrás dos dhows ancorados. Então a passarela entra sob cobertura. O Souk dos Tecidos se anuncia com arcos de madeira muito altos apoiados em grandes pilares de metal, uma solução moderna sustentando uma ideia antiga, e peças de seda, algodão e tecido de sári empilhadas nas portas dos dois lados. A própria arcada é a parada.
Saia da galeria pelo lado de dentro e siga pela Ali bin Abi Talib Street por alguns minutos, trocando a brisa do riacho pelo movimento das lojas de tecidos, sapatos e pulseiras. Este canto de Bur Dubai é o coração indiano da cidade velha. Comerciantes indianos já negociavam aqui no século XIX, e em 1958 o xeque Rashid lhes permitiu um templo hindu acima das lojas do souk, a algumas ruas de onde você caminha; desde janeiro de 2024 só o santuário de Krishna continua funcionando, pois o de Shiva se mudou para o novo templo de Jebel Ali. Os quarteirões são pequenos, então o horizonte se abre de repente. O minarete da Grande Mesquita surge sobre os telhados, e ao lado dele um forte atarracado cor de areia, com uma torre redonda no canto e grossas muralhas inclinadas. Esse forte é o museu.
De volta à água, siga a passarela para leste com o Creek ao lado. As vielas junto ao Creek parecem antigas, mas não são: este é Al Seef, concluído pela incorporadora Meraas em 2017, prédios novos vestidos de torres de vento e arish de folhas de palmeira de forma tão convincente que um professor de arquitetura chamou de fraude histórica. O autêntico está a poucos passos para dentro, e a diferença aparece. A passarela se afasta da água e se estreita numa viela em que você toca as duas paredes; o reboco é claro e irregular, as portas são de madeira pesada e, acima do telhado, torres de vento quadradas se alinham. Quando a viela se abre num pátio entre elas, você está em Al Fahidi.
Dois minutos de caminhada e só há vielas. Os emiradenses chamam estas passagens de sikkas, e foram feitas tão estreitas por um motivo: as paredes se sombreiam mutuamente durante a tarde, e a fresta entre elas conduz a brisa que as torres de vento lá em cima ainda não captaram. O som some rápido; a rua principal fica para trás e você ouve apenas seus passos no calçamento. Galerias, uma casa de chá e pequenos cafés ocuparam algumas das casas com pátio, mas o traçado do bairro não mudou. O Museu do Café fica numa delas: uma casa de dois andares com a porta identificada em inglês e árabe e sua própria torre de vento sobre a viela.
O Sheikh Mohammed Centre fica a apenas um minuto pelas mesmas vielas, então vá devagar. Em 1896, um incêndio varreu o Creek e queimou metade das casas de Bur Dubai, a maioria cabanas barasti de folhas de palmeira; as casas de coral e gesso cujas paredes você roça foram erguidas nos anos seguintes. Tudo nestas vielas já foi habitado, abandonado e restaurado desde então, e o silêncio que você ouve agora é um luxo recente. Olhe para cima ao andar: as torres de vento não são enfeite, mas o ar-condicionado do bairro, e não há duas exatamente iguais. O centro é a House 26, o número na parede, uma casa de dois andares com torre de vento cuja porta abre direto num pátio forrado de tapetes e almofadas baixas.
De volta ao Creek pela Al Seef Street, até o cais das abras, e então atravesse a água. A travessia leva poucos minutos e dá a melhor vista do dia: torres de vento e dhows de um lado, o vidro e o concreto de Deira do outro, e motores tão altos que ninguém fala até a outra margem. Deira deve parte do seu crescimento a esta margem: em 1841, uma epidemia de varíola irrompeu em Bur Dubai e levou famílias a cruzar a água para se estabelecer lá. Desde então o Creek faz de Dubai uma cidade de duas metades. O barco atraca na estação Al Sabkha, na outra margem, onde uma fileira de abras espera sob um cais coberto, e isso é Deira.
Dez minutos pelo velho Deira, primeiro pelo cais ao lado dos dhows ancorados, depois para dentro pela Old Baladiya Street. Baladiya quer dizer prefeitura, e o nome é literal: o prédio que abrigou a sede da Prefeitura de Dubai de 1957 a 1964 fica nesta rua, no coração do velho souk, e hoje é um pequeno museu. A rua foi repavimentada de ponta a ponta, fechada aos carros e ganhou um novo portão, e liga os souks do Ouro, dos Perfumes, das Tâmaras e das Especiarias num só passeio. Depois o próprio Souk das Especiarias assume, e o ar muda antes das placas: sacos abertos de limões secos, fieiras de pimenta e casca de canela nas portas das lojas.
Mais cinco minutos, e as vielas têm números em vez de nomes até a Sikkat Al Khail Road, mais larga, mais movimentada e cheia de perfumarias. Este é Al Ras, o Cabo, uma das comunidades mais antigas de Deira: um comerciante de pérolas, o xeque Ahmed bin Dalmouk, fundou aqui em 1912 a escola mais antiga conhecida de Dubai, e os ofícios do bairro simplesmente permaneceram enquanto os prédios ao redor mudavam. A Sikkat Al Khail Road desemboca na rua coberta chamada Gold Souk, e a chegada é inconfundível: uma longa arcada de teto de madeira com vitrines cheias de ouro do chão ao teto e os letreiros iluminados que o World Gold Council pendurou em cada entrada em 2003, proclamando Dubai a Cidade do Ouro. Você termina no coração do velho Deira, com a estação de metrô Al Ras a uma curta caminhada.