O coração imperial de Istambul
Da estação Sirkeci pelo Parque Gülhane e por Topkapı até Santa Sofia, a Cisterna da Basílica e a Mesquita Azul, terminando no Bazar Arasta. Duas horas tranquilas: uma subida suave até o parque, depois plano, com cafés no fim.
Percurso
Começa ao pé da primeira colina, onde a cidade velha encontra o Corno de Ouro. Sirkeci é um canto de trabalho de Istambul, não uma vitrine: hans e lojas pequenas, hotéis boutique, buzinas de ferry vindas dos cais a algumas ruas dali e o eléctrico rangendo diante da estação. Os bizantinos conheciam essa margem como Prosphorion; hoje o mesmo chão é um nó de comboios suburbanos, eléctricos e ferries, com a linha Marmaray passando por baixo. A caminhada se afasta da água pela Hüdavendigar Caddesi, rumo à linha escura da muralha do palácio acima do parque. A estação é o longo salão de pedra com a grande janela redonda sobre a entrada, logo atrás do paragem do eléctrico.
O muro alto ao lado dos trilhos do eléctrico é a muralha externa do Palácio de Topkapı, e acompanha-o por oito minutos, pela Hüdavendigar Caddesi e depois entre as árvores da Gülhane Parkı Sokağı. O parque lá dentro foi o jardim externo do palácio, em grande parte um bosque. No alto fica o Quiosque do Cortejo, sobre a muralha acima da linha do eléctrico, a janela de onde os sultões assistiam aos desfiles; do outro lado da rua está o portão da Sublime Porta, a Alta Porta, que deu nome a todo o governo otomano. Está dentro do parque quando o ruído do eléctrico some e plátanos altos fecham-se sobre o caminho.
A Osman Hamdibey Yokuşu Sokağı leva-o encosta acima por onze minutos, o trecho mais longo do dia. Está na primeira das sete colinas da cidade velha, o promontório onde a Bizâncio grega tinha sua acrópole e onde os otomanos puseram depois o palácio, e o resto do passeio não sai mais dela. A encosta leva o nome do pintor que fundou o museu no alto; yokuş quer dizer simplesmente encosta. Árvores, gatos e o silêncio do antigo jardim do palácio substituem o trânsito. Chegou quando a rua se abre num pátio onde sarcófagos e tambores de colunas repousam na relva sob as árvores, com uma longa fachada neoclássica atrás.
Do portão do museu, a travessa volta à Osman Hamdibey Yokuşu Sokağı e as passarelas levam-no, em sete minutos, ao Primeiro Pátio de Topkapı. É o maior pátio do palácio e o único em que a cidade podia entrar, um parque murado que os otomanos chamavam de Pátio dos Janízaros, onde funcionários e soldados se alinhavam ao longo do caminho nos dias de procissão. Os plátanos são enormes e a escala é proposital; era o relvado da frente dos sultões. O pátio termina no Portão da Saudação, uma muralha com duas grandes torres octogonais pontiagudas, como a entrada de um castelo, com uma inscrição que a data de pelo menos 1542. Só o sultão podia passar a cavalo; todos os outros, então como agora, vão a pé.
Cinco minutos sem pressa de volta pelo Primeiro Pátio, que os otomanos também chamavam de Pátio do Desfile. Ao lado do caminho cerimonial ficavam os edifícios de serviço do palácio: entre as árvores está a Casa da Moeda Imperial, a Darphane-i Amire, construída em 1727, onde as moedas do império eram cunhadas dentro da muralha do próprio sultão. Há fontes nas bordas, e pedra, relva e cascalho substituem o calçada. Depois, estranho para o pátio de um sultão, uma igreja: Santa Irene é o edifício simples de tijolo vermelho, de cúpula baixa e filas de janelas em arco, isolado entre as árvores perto do muro do pátio, e parece mais antigo que tudo ao redor.
Saia pelo Portão Imperial, a imensa entrada por onde os sultões chegavam, construída em 1478 e revestida de mármore no século XIX, e vá à praça do lado de fora, depois pela Soğukçeşme Sokağı. A praça pertence a uma fonte. Ahmed III mandou construí-la em 1728, um bloco quadrado sob cinco pequenas cúpulas, com um bebedouro em cada face e janelas gradeadas nos cantos, onde atendentes distribuíam água e sorbet de graça; na Era das Tulipas era ponto de encontro de toda a cidade, e é a mais antiga do gênero. Ela se anuncia de imediato: uma fila de casas altas pintadas em tons pastel, com sacadas empilhadas sobre os calçada, coladas de um lado à muralha do palácio.
Quatro minutos: por toda a extensão da Soğukçeşme Sokağı e depois pela Bab-ı Hümayun Caddesi, rua batizada com o nome do Portão Imperial que ficou para trás. A Soğukçeşme Sokağı corre na estreita fresta entre a muralha do palácio e os fundos de Santa Sofia, de modo que, por todo o caminho, a parede dos fundos da grande igreja é a vista. Escondida nesse mesmo canto apertado, alcançada por uma escada a partir de uma travessa, fica a Caferağa Medrese, uma pequena escola que Sinan construiu em 1559 para Cafer Agha, no reinado de Solimão; desde 1989 as celas em volta do pátio abrigam oficinas em que se ensinam e vendem caligrafia, cerâmica e joias. Não há como enganar-se com o edifício que veio ver: a massa vermelho-ferrugem de Santa Sofia, contraforte sobre contraforte, uma cúpula rasa entre quatro minaretes, preenche o fim da rua.
Contorne a frente de Santa Sofia e atravesse a Ayasofya Meydanı, cinco minutos. A praça diante da igreja é o coração aberto do bairro, com grupos de turistas, carrinhos de simit e os dois grandes edifícios que se encaram por cima dos jardins. Num canto, uma coluna de pedra desgastada se ergue sozinha: o Milion, o marco zero a partir do qual o Império Romano do Oriente media todas as estradas, um fragmento reerguido depois que as casas por cima foram removidas e o terreno escavado em 1967 e 1968. A entrada da cisterna é um edifício baixo e modesto ali perto, sem nada acima do solo que sugira o que há embaixo; a coluna solitária do Milion é o sinal de que está no lugar certo.
Os jardins entre os dois grandes edifícios levam-te até ao longo espaço aberto mais adiante, seis minutos. É o Hipódromo, a pista de corridas de carros da Constantinopla bizantina; os otomanos chamavam-lhe At Meydanı, a Praça dos Cavalos, e a antiga pista jaz enterrada bem abaixo do pavimento atual. Na extremidade superior ergue-se a Fonte Alemã, o agradecimento do cáiser Guilherme II pela visita de 1898 ao sultão Abdülhamid II: feita na Alemanha, enviada para Istambul e montada aqui, foi inaugurada a 27 de janeiro de 1901, aniversário do cáiser. Essa fonte é o teu ponto de referência: um pavilhão octogonal com cúpula, sobre oito colunas de pórfiro, com um mosaico dourado a brilhar dentro da cúpula, no topo da praça.
Agora pelo lado comprido da praça, três minutos. O solo aqui é feito de camadas: os imperadores bizantinos assistiam às corridas do Kathisma, seu camarote deste lado da pista, ligado por uma passagem ao Grande Palácio, que se estendia pela encosta atrás dele rumo ao mar, e a maior parte desse palácio está hoje sob a mesquita e seus vizinhos otomanos. Ainda em 1993, uma área diante da mesquita foi escavada para um edifício público e revelou filas de assentos e colunas do Hipódromo. A chegada é uma cascata de cúpulas e meias-cúpulas cinzentas que sobem até a principal, minaretes nos cantos e o longo muro arcado do pátio à sua frente.
Atrás da mesquita o terreno já pende para o mar de Mármara, e a Arasta Çarşısı Sokağı corre pela encosta numa única fila reta de pequenas lojas, a três minutos do muro do pátio. O topo todo da colina se inclina para cá: na outra ponta do Hipódromo os bizantinos precisaram de uma muralha curva de vinte e cinco arcos abobadados para manter a pista nivelada nesta mesma encosta, e seus arcos inferiores ainda estão de pé, com as casas à frente removidas só nos anos 1980. Aqui o passeio termina onde deve, num lugar para sentar: uma travessa estreita de lojas de tapetes e cerâmica sob um beiral baixo, copos de chá nas mesas do lado de fora, as cúpulas cinzentas da mesquita logo acima dos telhados atrás de si, e o eléctrico de volta em Sultanahmet a poucos minutos morro acima.