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Percurso

O coração medieval de Amesterdão

Da Estação Central de Amesterdão, passando pela Oude Kerk, Nieuwmarkt e De Wallen, até à Praça Dam e Spui: igrejas, uma capela escondida no sótão e o Palácio Real. Um passeio curto e plano, em calçada e pontes de canais, cheio de gente junto à Dam.

A pé≈ 2 h3,8 km13 locais

Percurso

Fica na praça da estação, com a longa fachada de tijolo da Centraal nas tuas costas e a cidade a abrir-se à frente, do outro lado de uma faixa de água. A praça recebeu o nome em 1889, quando a estação abriu, e por volta de 1900 já tinha substituído a Dam como centro dos elétricos; continua cheia de campainhas e bicicletas. A Prins Hendrikkade, que corre ao longo da água, foi batizada em 1879 em honra do príncipe Hendrik, o membro da realeza apaixonado pelo mar, conhecido como o Navegador. Antes da estação, esta era a margem norte da cidade, onde os barcos de leite de Ransdorp e Zunderdorp, as aldeias do outro lado do IJ, atracavam todas as manhãs. O passeio sai pela IJ-passage, sob a estação, e regressa em arco junto à água. Estás no sítio certo quando as duas torres da estação se erguem atrás de ti e os elétricos contornam a praça à tua frente.

  1. Amsterdam Centraal

    Monumental estação ferroviária neogótica construída em ilhas artificiais, ponto de ligação de comboios, elétricos, ferries e metro.

Sai pela IJ-passage e segue pela Prins Hendrikkade, a antiga frente portuária, cinco minutos ao longo da água. Durante séculos este foi o limite de Amesterdão: onde hoje está a estação havia água aberta, e uma estalagem de 1662, a Nieuwe Stadsherberg, esteve no meio do IJ até 1872, quando começaram a elevar o terreno da ilha da estação e foi demolida. Um mosaico de nomes mais antigos, entre eles o do cais dos embaladores de arenque, foi reunido num só em 1879, quando a frente de água recebeu o nome do príncipe Hendrik. Gaivotas, campainhas de elétricos, a água a bater na muralha. Não tens como falhar a chegada: as torres gémeas e a cúpula central da basílica erguem-se mesmo do outro lado da água, em frente à estação.

  1. Basílica de São Nicolau

    Basílica neobarroca perto do porto, igreja padroeira dos marinheiros de Amesterdão, com uma cúpula de cinquenta e oito metros.

A Prins Hendrikkade dá lugar à Nieuwebrugsteeg, uma ruela que o afasta da frente do porto e o leva ao lado mais antigo da cidade. O Oudezijds Voorburgwal, o canal no fim dela, começou como um ribeiro e deve o nome a uma muralha de terra: quando, por volta de 1385, se ergueram novas muralhas, a antiga passou a ser a muralha da frente, o Voorburgwal, e a cidade estendeu-se para além dela. Nos séculos XVII e XVIII, os amsterdamenses chamavam-lhe o Canal de Veludo. Caminhe à beira da água a ler as fachadas das casas, e não o horizonte; as empenas inclinam-se aqui muito perto. A paragem é uma estreita casa de tijolo junto ao canal, nos números 38 e 40, de fachada simples entre as vizinhas.

  1. Nosso Senhor no Sótão

    Casa de canal do século dezassete que esconde no sótão uma igreja católica totalmente funcional, hoje um museu.

Mantém o canal a teu lado ao longo do Oudezijds Voorburgwal, três minutos para sul, com a torre da Oude Kerk já a espreitar sobre os telhados. Este troço de água deu aos neerlandeses uma expressão. Os barris de cerveja de Delft eram descarregados aqui, no Bierkaai, e os estivadores que os faziam rolar eram tão conhecidos pela dureza que vechten tegen de bierkaai, lutar contra o cais da cerveja, ainda significa enfrentar uma causa perdida. O canal tem ainda outra fama curiosa: no baralho neerlandês comum, é esta a vista impressa no ás de ouros. Chegaste quando as casas do canal recuam e a igreja toma conta, de tijolo e chumbo, a ocupar a sua própria pracinha, com a torre mesmo por cima de ti.

  1. Oude Kerk

    O edifício mais antigo de Amesterdão, uma igreja medieval com sessenta mil sepulturas sob o pavimento e a maior abóbada de madeira da Europa.

A leste da igreja, as vielas estreitam. A Oudekerksplein, o terreno em redor da Oude Kerk, foi cemitério até 1655, quando as sepulturas foram removidas e os mortos levados para fora da cidade; estás a atravessar um antigo cemitério. A Oudekennissteeg conduz à Majoor Bosshardtbrug, que homenageia o major do Exército de Salvação que trabalhou nestas ruas durante décadas, e por cima do segundo canal, o Oudezijds Achterburgwal, escavado em 1367 como limite oriental da cidade. A Monnikenstraat lembra os franciscanos, cujo convento aqui esteve de 1464 a 1578. Depois os edifícios simplesmente acabam. A Nieuwmarkt só é praça desde 1614, quando a água em torno da antiga porta foi coberta por abóbadas; em 1975 revoltou-se contra o metro, e serviu de parque de estacionamento até ao início dos anos 1990. A Waag, com as suas torres, ergue-se sozinha no meio dela.

  1. Praça Nieuwmarkt

    Portão medieval da cidade transformado em casa de pesagem, local da aula de anatomia que inspirou a pintura mais famosa de Rembrandt.

A Bloedstraat, a rua curta que sai da praça, tem um nome que nos faz parar. A partir de 1464, um convento de franciscanos ocupou este terreno; foi destruído em 1578 e a rua foi traçada ao longo da linha da sua igreja. O nome vem provavelmente da bloetcamer do convento, uma câmara que talvez servisse de sala de tortura, embora um cronista do século XVII afirmasse que o Conselho de Sangue do duque de Alba aqui se reunira. O Oudezijds Achterburgwal, o canal que segues para sul, tem mais de cem monumentos nacionais nas margens, e em 1780 o diplomata americano John Adams alojou-se nele durante mais de meio ano. A paragem é a Paulusbroedersluis, a ponte de pedra onde uma travessa movimentada encontra o canal; fica a meio da ponte, com as casas altas e estreitas nas duas margens.

  1. De Wallen

    Bairro histórico junto aos canais e o mais antigo bairro da luz vermelha de Amesterdão, com montras e a estátua de Belle.

A Oude Doelenstraat leva-te para oeste, para fora dos canais e até à Dam, em quatro minutos. Hoje discreta, é uma das linhas mais antigas do mapa: desde a Idade Média fez parte do principal eixo este-oeste de Amesterdão, que ia da Dam ao dique que então marcava o limite oriental da cidade. O nome vem de Oude Doelen, um edifício de 1382 onde a guarda cívica se reunia para treinar, demolido no início do século XVI para alargar a rua. Depois as paredes recuam e a Dam abre-se. Os navios atracavam na própria Dam até 1841, e em 1808 Luís Napoleão mandou demolir a antiga casa do peso que aqui havia, porque lhe estragava a vista do palácio. De um lado o palácio e a sua cúpula, do outro a coluna branca do Monumento Nacional.

  1. Praça Dam

    Histórica praça central e coração de Amesterdão, sede do Palácio Real, do Monumento Nacional e de um massacre da Segunda Guerra Mundial.

Atravessa para o lado da praça voltado para o Damrak e segue ao longo da frente do palácio, três minutos. O Damrak fazia parte do porto mais antigo de Amesterdão, o último troço reto do Amstel antes de encontrar o IJ, e a extremidade sul onde estás só foi aterrada em 1845 e 1883. No século XVII, dezenas de lojas negociavam ao longo do seu único cais, cerca de dez delas livrarias, com rendas que já eram famosas. Mais adiante, as casas da margem leste continuam com as paredes das traseiras dentro de água. A Nieuwe Kerk fica ao lado do palácio: uma igreja gótica de janelas altas e sem grande torre, igreja e câmara municipal a partilhar o mesmo canto da praça.

  1. A Igreja Nova

    Igreja gótica na praça Dam, sala de exposições e local de investidura real, com o túmulo do almirante Michiel de Ruyter.

O troço mais curto: a Mozes en Aäronstraat, a rua estreita entre a igreja e o palácio, dois minutos. Ninguém sabe quando recebeu o nome, só porquê: Moisés pelo poder temporal instalado na câmara municipal de um lado, Aarão pelo poder espiritual da igreja do outro. Em 1942 os ocupantes rebatizaram-na em honra dos correios; a 18 de maio de 1945 Amesterdão devolveu-lhe o nome. Vai dar à Nieuwezijds Voorburgwal, um canal até 1884, onde atracavam as barcaças da Holanda do Sul, e durante grande parte do século XX o boulevard dos jornais da cidade: o De Telegraaf e o de Volkskrant tinham aqui as suas redações, até os jornais se mudarem entre 1967 e 1976. A Magna Plaza fica mesmo do outro lado da rua: faixas de tijolo vermelho e pedra clara, torreões e um telhado íngreme, grandiosa demais para uns correios.

  1. Magna Plaza

    Antigos correios neogóticos transformados em centro comercial, com galerias claras, cúpula de vidro e torres.

Uma volta pelas traseiras do palácio, cinco minutos: para sul pela Nieuwezijds Voorburgwal, e depois a Paleisstraat devolve-te à Dam. O canal aterrado ao lado do qual caminhas foi pioneiro: elétricos desde 1903, o primeiro polícia de trânsito de Amesterdão colocado aqui em 1912, os primeiros parquímetros da cidade em 1964. A Paleisstraat é mais nova do que parece. O nome foi fixado por deliberação da câmara a 29 de março de 1875, em referência à câmara municipal de 1648 que se tornara palácio; antes disso, parte dela tinha o nome do hospital mais antigo da cidade, um gasthuis do século XIV. Ao regressares à praça, o edifício que vinhas a contornar mostra finalmente o rosto. Detém-te na Dam diante da longa fachada clássica, do frontão esculpido e da cúpula por cima.

  1. Palácio Real de Amesterdão

    Câmara municipal do século dezassete em estilo barroco holandês, transformada em palácio real, com a mais rica coleção de mobiliário império fora de França.

Sai da Dam pela Rokin, a rua larga que segue para sul, sete minutos com uma viela no final. Estás a caminhar sobre o rio: a Rokin é o antigo leito do Amstel, e este troço só foi aterrado em 1933 e 1936; até 1933 um pequeno barco levava as pessoas de uma margem à outra. Quando o metro foi escavado por baixo, entre 2003 e 2020, os arqueólogos encontraram no fosso um enorme espólio de objetos de 1300 a 1900: sapatos inteiros, jarros, ossos, potes quase intactos, porque o rio corria mais calmo aqui do que no Damrak. A Duifjessteeg, a viela que tomas, tem o nome de uma cervejaria, a 't Duyfje, que aqui produziu de 1580 a 1640. Termina numa rua comercial movimentada; aí, entre as montras, há um portal de arenito com crianças esculpidas por cima do arco. É o museu.

  1. Museu de Amesterdão

    Museu de história no antigo orfanato municipal, um convento reconvertido após a Reforma de 1578.

A Sint Luciënsteeg, aberta em 1532, corre ao lado do museu, e a sua parede é um museu por si só: quarenta e sete pedras de fachada salvas de casas demolidas por toda a cidade e encastradas no tijolo entre 1924 e 1927, navios, animais, santos e ofícios, os sinais de casa que as pessoas usavam antes dos números de porta. Pela Nieuwezijds Voorburgwal e para dentro da Gedempte Begijnensloot, cinco minutos. Este último nome significa vala das beguinas aterrada: a água cercou outrora o Begijnhof e em 1342 marcava o limite oeste de Amesterdão; foi aterrada em 1865, em parte por razões de saúde pública. Pelo portão, o barulho desvanece. Entraste quando um relvado se abre à tua frente, rodeado de fachadas antigas, com uma igreja no meio do verde. Ainda aqui vive gente, por isso caminha em silêncio.

  1. Begijnhof

    Pátio medieval feminino escondido atrás da praça Spui, habitado ininterruptamente desde o século catorze.

De volta pela Gedempte Begijnensloot, e dois minutos depois o passeio termina na Spui. O nome é mais antigo do que a praça: a Spui era a água que marcava o limite sul de Amesterdão até 1425, e só foi aterrada em 1882. Um elétrico puxado a cavalos atravessava-a desde 1877; desde uma remodelação em 1996 está quase totalmente livre de carros, e às sextas-feiras uma feira do livro ocupa o pavimento. A longa fachada clássica e sóbria do lado sul é a Maagdenhuis, construída entre 1783 e 1787. Chegaste quando as vielas te largam num espaço aberto, com livrarias nas esquinas e um pequeno rapaz de bronze sobre um pedestal baixo na metade sul da praça. O passeio termina aos pés dele, entre o centro medieval atrás de ti e o anel de canais mais adiante.

  1. Praça Spui

    Praça histórica dominada por uma atrevida estátua de bronze de um rapaz de rua que desencadeou a radical contracultura de Amesterdão nos anos sessenta.