A Madeira é o cume de um vulcão em escudo que emergiu do Atlântico há cerca de cinco milhões de anos, a uns 1.000 km a sudoeste de Lisboa e mais perto do Marrocos do que de Portugal continental. Navegadores portugueses a reivindicaram para o infante D. Henrique, o Navegador, em 1419, e a ilha que encontraram era tão densamente arborizada que a chamaram simplesmente de madeira. Seis séculos depois, é um lugar de picos de 1.800 metros que furam as nuvens, vinhedos em socalcos, bananais, falésias sobre o mar e uma floresta de louros mais antiga que o próprio povoamento.
É também uma ilha que se entende melhor por suas histórias: por que o mercado dos agricultores do Funchal parece um monumento estatal dos anos 1940, como um sistema de irrigação do século XV virou a rede de trilhas mais amada da Europa, por que senhores de chapéu de palha ainda conduzem carros de cesto por uma estrada de montanha. Cada ponto turístico aqui tem seu próprio audioguia, então você pode caminhar pelo centro histórico, subir de teleférico ou seguir uma levada e ouvir essa história enquanto a vista se abre à sua frente. Comece pela Zona Histórica do Funchal, o bairro de paralelepípedos onde toda a ilha começou.
Funchal: o centro histórico, o mercado e a catedral
O Funchal, a capital, abriga cerca de 100.000 dos 250.000 habitantes do arquipélago e sobe a encosta em anfiteatro ao redor da baía. O Mercado dos Lavradores foi inaugurado em 1940 no estilo monumental do regime do Estado Novo; sua fachada de azulejos e as vendedoras de flores em trajes típicos listrados são uma atração tanto quanto os maracujás, as anonas e o peixe-espada preto nas bancas lá dentro. A poucas ruas dali, a Sé Catedral do Funchal é um dos edifícios mais antigos da ilha, concluída no início do século XVI com um teto de cedro de influência mourisca, enquanto o Forte de São Tiago, de muros amarelos, guarda a orla desde o século XVII. As vielas ao redor, na Zona Velha, são território de portas pintadas de dia e de bares de poncha à noite.
Mercado dos Lavradores
Mercado art déco de fachadas de azulejos, bancas de frutas tropicais, flores e peixaria.
Sé do Funchal
Catedral do gótico tardio com teto entalhado em cedro da ilha e torre do relógio sobre o mar.
Forte de São Tiago
Fortaleza amarela do século dezessete à beira-mar, com baluartes, muralhas e vistas do Atlântico.
Subida ao Monte de teleférico, descida de carro de cesto
O Teleférico do Funchal leva você em cerca de vinte minutos do centro histórico à freguesia do Monte, na encosta, 560 metros acima do porto. Lá em cima, o Jardim Monte Palace Madeira espalha jardins orientais, painéis de azulejos e lagos de carpas koi pela antiga propriedade de um hotel, e a igreja de Nossa Senhora do Monte guarda o túmulo de Carlos I, o último imperador austríaco, que morreu exilado na ilha em 1922. E então vem a descida. A Associação dos Carreiros do Monte opera os carros de cesto que os moradores usavam como transporte público desde o início do século XIX: dois condutores de branco, botas com sola de borracha como freios, dois quilômetros de asfalto íngreme a velocidades já cronometradas perto de 40 km/h. O audioguia conta a história antes de você embarcar — o percurso em si não deixa tempo para ouvir.
Teleférico do Funchal
Teleférico da cidade velha à beira-mar até uma freguesia na encosta, com vista para o porto.
Jardim Tropical Monte Palace
Jardim tropical em encosta com lagos de carpas koi, jardins orientais e enorme coleção de azulejos.
Associação dos Carreiros do Monte
Carros de cesto de vime sobre patins de madeira untados, guiados morro abaixo por condutores.
Do Pico do Arieiro ao Pico Ruivo acima das nuvens
A espinha dorsal da ilha é uma linha de picos vulcânicos que frequentemente se erguem sobre um mar de nuvens. O Pico do Arieiro (1.818 m) é acessível de carro e é o lugar clássico para o nascer do sol; do seu cume, a trilha PR1 Vereda do Areeiro percorre cristas afiadas e túneis escavados à mão até o Pico Ruivo, que com 1.862 metros é o ponto mais alto da Madeira. É uma das grandes caminhadas de montanha da Europa, cerca de sete quilômetros em cada sentido com subidas sérias, por isso a maioria sai cedo e fica de olho no tempo. Os guias em cada extremidade explicam como essa paisagem se formou — as últimas erupções foram há apenas cerca de 6.500 anos — e por que as plantas agarradas à rocha não existem em nenhum outro lugar.
Pico do Arieiro
Cume vulcânico escarpado com acesso de carro, nasceres do sol sobre as nuvens e trilhas na crista.
PR1 Vereda do Areeiro
Trilha de crista entre os picos mais altos da ilha, por túneis vulcânicos e passagens à beira do penhasco.
Pico Ruivo
Cume mais alto da ilha, uma coroa rochosa nua acima das nuvens, alcançada por trilhas de crista.
Levadas pela laurissilva
O norte da Madeira é úmido e o sul é seco, então a partir do século XV os colonos escavaram estreitos canais de pedra — as levadas — para levar água através da ilha. Mais de 2.000 quilômetros foram construídos, e seus caminhos de manutenção formam hoje as melhores trilhas de todo o Atlântico. A PR6 25 Fontes hike & Levada do Risco, acima do Rabaçal, leva a um anfiteatro de musgo alimentado por vinte e cinco nascentes e a uma cascata que cai como um véu; a Levada do Caldeirão Verde PR9, perto de Santana, atravessa túneis e cornijas até um caldeirão verde com cascata. Ambas correm pela laurissilva, a floresta subtropical de louros que um dia cobriu o sul da Europa e é Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1999. Para ver a floresta em sua versão mais atmosférica, vá à Fanal Forest, no planalto do Paul da Serra, onde tis centenários curvados pelo vento se erguem na névoa como saídos de uma fábula.
Trilha PR6 25 Fontes e Levada do Risco
Canal de irrigação escavado no penhasco através da laurissilva até uma cascata de nascentes.
Levada do Caldeirão Verde PR9
Canal de irrigação na encosta, entre floresta de louros e túneis de rocha, até um lago verde com cascata.
Floresta do Fanal
Pastagem de altitude envolta em neblina, com loureiros seculares, gado pastando e nuvens à deriva.
Cabo Girão, Câmara de Lobos e uma taça de Madeira
A oeste do Funchal, a estrada costeira sobe até o Cabo Girão, uma falésia de cerca de 580 metros com uma passarela de piso de vidro suspensa sobre as fajãs em socalcos lá embaixo. À sua sombra fica Câmara de Lobos, a vila de pescadores onde Winston Churchill montou seu cavalete em 1950 e onde os barcos de peixe-espada ainda chegam sob as falésias; é a terra da poncha, o coquetel de rum e cítricos da ilha. De volta à capital, a Blandy's Wine Lodge é administrada pela mesma família há dois séculos e conduz você pela história do vinho Madeira, do açúcar aos vinhedos: o vinho fortificado que era aquecido nos porões dos navios a caminho das colônias e com o qual se brindou na assinatura da Declaração de Independência dos Estados Unidos.
Cabo Girão
Imponente falésia com mirante de piso de vidro sobre terraços cultivados à beira do oceano.
Câmara de Lobos
Porto pesqueiro ativo de barcos pintados de proa dupla, famoso pelo peixe-espada-preto e pela poncha.
Blandy's Wine Lodge
Adega histórica de vinho Madeira com envelhecimento em barris de carvalho, tanoaria e museu.
O norte selvagem e a ponta leste
A costa norte é outra ilha: basalto, arrebentação e cachoeiras que caem direto sobre a estrada. Nas Piscinas Naturais do Porto Moniz, correntes de lava esfriaram formando piscinas naturais de água do mar que o Atlântico reabastece a cada onda. No interior, em Santana, os palheiros triangulares de colmo — antes casas de família com a colheita guardada no sótão — sobrevivem como as casas mais fotografadas da ilha, em um município que a UNESCO declarou reserva da biosfera em 2011. No extremo oposto, a Ponta de São Lourenço é a Madeira em estado bruto: uma península vulcânica sem árvores, de rocha vermelha e ocre, onde uma trilha da reserva natural que parte do Caniçal leva você até o fim da ilha com o oceano dos dois lados.
Piscinas Naturais do Porto Moniz
Piscinas de água do mar em rocha vulcânica negra, renovadas pelo oceano e protegidas da rebentação.
Santana
Vilarejo agrícola da costa norte com casinhas triangulares de palha, íngremes, pintadas de vermelho, branco e azul.
Ponta de São Lourenço
Península vulcânica rochosa de diques de basalto e falésias nuas, que termina num ilhéu com farol.
Como se locomover
O Funchal é compacto e dá para percorrer a pé, e seu teleférico, os ônibus e o carro de cesto cobrem o Monte. Para os picos, as levadas e a costa norte você vai querer um carro alugado ou um passeio; as estradas são excelentes, mas íngremes, e os túneis que hoje atravessam as montanhas reduziram a maioria das viagens de um lado a outro da ilha a menos de uma hora. O tempo muda de vale para vale — sol no Funchal, nuvens no Arieiro, chuva em Santana —, então confira as webcams dos picos antes de se comprometer com uma trilha. Os audioguias funcionam offline na trilha, onde o sinal não chega.

